Uma história de crueldade, misericórdia e vingança (iniciada em Sento Sé e concluída em Campo Formoso)
Por Ten Cordeiro
Há um povoado no município de Sento Sé, norte da Bahia, chamado de Cabeludas. É um garimpo de ametista espalhado por diversas grotas em uma área pedregosa. Ali, existem registros de pinturas rupestres numa imensa grota conhecida como Caretas. Notadamente essas pinturas evidenciam a presença de homens desde a Pré-história naquela região. As pinturas estão lá pra qualquer curioso, ou estudioso ir verificar. O nome do povoado, e do garimpo soa estranho. Mas sua origem nada tem a ver com a qualidade violeta da ametista extraída daquele chão. Este nome surgiu antes mesmo que os homens descobrissem a riqueza da ametista naquela área.
Aos pés de uma imensa Gameleira, árvore secular e frondosa, situada no centro do povoado, há uma nascente d’agua, ou olho d’agua, como chamam os sertanejos dessas bandas. Lá, antes da descoberta do garimpo, era ponto de descanso para caçadores e sobretudo local de extração de mel. Água e sombra em abundância, fizeram daquele lugar um oásis no meio dos grotões da região. Tais caçadores acabaram batizando aquele lugar, no início do século passado, em virtude das características físicas das abelhas existentes nas proximidades da nascente d’agua. As abelhas daquela região eram “cabeludas” e estranhas, diferentes das demais. (Provavelmente eram abelhas Mandaçaia). Daí surgiu o nome do povoado de Cabeludas, antes mesmo do início do garimpo, que só aconteceu na década de 40 do século passado.
Foi neste povoado que aconteceu o brutal homicídio de dois irmãos, no ano de 1968. Foram mortos a facadas e vingados igualmente anos mais tarde na cidade de Campo Formoso. É uma história surpreendente de covardia, coragem, pureza, ódio, amor e grandeza, ao final o leitor por certo se identificará com um desses sentimentos.
Na década de 60, o povoado de Cabeludas já era bastante famoso e para lá se dirigiam centenas de pessoas em busca de riqueza. O povoado já tinha uma vida agitada em razão do dinheiro que “corria”, pela compra e venda de ametista. Apesar de ser mais recente que os outros povoados ali existentes, Cabeludas era o centro catalizador das demais localidades, a exemplo de Limoeiro, bem perto dali, inclusive foram os habitantes de Limoeiro que batizaram Cabeludas, eles é quem mais se dirigiam até as adjacências da nascente para explorar mel.
Ali, em Cabeludas, morava uma senhora conhecida por Dona Téofila, a quem o populacho sacramentou como Dona Tiofa. Era casada e mãe de filhos e filhas. Tiofa era muito vistosa e formosa quando jovem, segundo dizem, arrebatava corações. Os filhos dessa senhora eram: Arquelino, Elizeu, Agenor, Guilhermino, Renato (Nego), Herblandes (Manu), Cecilia (Pombinha) e Olita (Lita). Todos feitos e já envolvidos com o garimpo e outras virações naquela época.
Havia também um jovem conhecido pelo apelido de Gino, das bandas do Limoeiro. Não tinha parentesco com os filhos de Teófila, era apenas conhecido deles. Ganhava a vida garimpando. Sujeito dado à bebedeira, um antro de valentia e violência. Muito parecido com João Valentão, da obra de Ariano Suassuna.
Arquelino Ribeiro dos Santos, o primogênito de Dona Tiofa, casado e pai de 06 filhos (05 homens e 01 mulher), à época tinha um Jeep, veículo que usava para trabalhar. Nesse tempo ele trabalhava entre Cabeludas e a Serra da Carnaíba. Costumava fazer “frete”, sempre que possível, para João Macambira, comerciante que, até o dia de hoje, ainda habita o povoado de Cabeludas. João Macambira, por décadas, tem sido o principal comerciante daquele lugar.
Agenor Ribeiro dos Santos, terceiro filho mais velho, à época era muito conhecido no garimpo. Era um dos grandes compradores de ametista do lugar e frequentemente viajava paro Rio de Janeiro e outras localidades para vender ametista já beneficiada. Figura cuja presença irradiava respeito e, como se dizia no sertão, era um homem de possibilidades. Sério e correto em seus negócios, Agenor Ribeiro nesse tempo já estava convertido ao evangelho, fato que mudou drasticamente seu proceder e sua conduta, voltou-se para a filosofia de Cristo e do Evangelho. É um dos fundadores da igreja Assembleia de Deus na Nova Sento Sé. Já o quinto filho de Dona Tiofa era Renato Ribeiro dos Santos, mais conhecido por Nego, por ser amorenado em relação aos demais. Há mais filhos, conforme citados acima, no entanto, aqui cabe somente estes, necessários ao entendimento da narrativa.
Cabeludas já foi palco de eventos lastimosos e de vários crimes. É uma parte do Sertão (semiárido brasileiro), não diferente do que nos revelou Euclides da Cunha, em sua obra “Os Sertões”, ou como tão bem pintou os costumes, atos e linguagem do sertanejo, Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”. São escritores que revelaram a gente do sertão para o resto do país. A vida dos jagunços e de todos os tipos aqui originados. No sertão a valentia dos homens pulsa na pele. Aqui, até os dias de hoje, há um índice enorme de assassinatos por faca, quase sempre homicídios ligados à honra, ou por motivo fútil, quando a bebida aperta os miolos, ou quando a palavra empenhada não é cumprida. Nos rincões do sertão os homens são diferentes, não insultam e nem toleram o insulto. Quando o cabra é bom, de fato faz jus à doçura de ser humano. Acredito que é na figura do sertanejo e do homem interiorano, que Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, nos cunhou a figura do homem cordial. Também, quando o cabra é ruim, faz jus à perversidade e origina seres famigerados como Volta Seca, do bando de Lampião. O sertão é terra de extremos, mas ainda assim aqui estão os melhores homens e mulheres. Voltemos a narrativa.
João Macambira estava acertando um “frete” com Arquelino para buscarem farinha no povoado de Campinas (povoado de Seu Afro, antigo comerciante da cidade de Sento Sé), próximo à Lagoa dos Crinqurins, às margens do Rio São Francisco. Devo lembrar que à época, não existia a Barragem de Sobradinho, o que implica dizer que o Rio era estreito e bastante usado por rebocadores. Sento Sé era somente uma pequena cidade localizada na altura da Serra do Mulungu, hoje entre os povoados de Piri e Piçarrão. Arquelino e João Macambira ajustaram o valor do frete e o horário para a partida, pois o comércio de João carecia de farinha de mandioca.
Na noite de 07 para 08 de janeiro de 1968 (de domingo para segunda-feira), o irmão de Arquelino e Agenor, conhecido por Nego, passou a noite bebendo com o jovem Gino. Era comum, aos finais de semana, os garimpeiros pegarem o apurado das ametistas, produzido durante a semana, venderem e aproveitarem parte do dinheiro para tomarem pinga. Era uma diversão do lugar. Assim como Fabiano, personagem de Graciliano Ramos, em dia festivo na cidade, ao lado de sua família, bebia pinga e desafiava todo mundo, ficava valente (Vidas Secas). Em Cabeludas existiam centenas de Fabianos. Aos finais de semana, aquele garimpo incendiava. Vendedores de toda sorte viajavam para lá, desde vendedores de verdura (Dona Betu), a vendedores de roupa. Onde há dinheiro, aí haverá danação. Gino e Nego beberam juntos, eram conhecidos. Entraram pela noite e amanheceram o dia bebendo pinga sem nem suspeitaram que em breve um deles mataria o outro. Nego já vinha bebendo desde o dia 1º de janeiro, comemorando as festas de reisado.
Já no dia 08, ainda tomado pelo efeito do álcool, a pessoa de Gino tomou conhecimento que Arquelino iria até a margem do Rio São Francisco buscar farinha com João Macambira. Infernação de bêbado, desejou ir junto. Então tentou persuadir Arquelino para que o levasse no veículo. Gino não tinha nenhum proposito na viagem, exceto vadiagem. Arquelino disse não poder levá-lo, pois o carro estava alugado para João Macambira, cabendo a ele decidir se o levaria ou não. Mas quem diabos se aceitará uma empreitada dessas com um homem embriagado? Pois é. Gino ficou enraivecido e passou a dizer impropérios com Arquelino em busca de uma confusão.
Ciente de que não levaria Gino, Arquelino e João preparam-se para a viagem. Gino tomado pelo ódio em razão da recusa, não aceitou de bom grado. Então quando embarcaram no Jeep, Gino dirigiu um palavrão ofendendo a dignidade de Arquelino, que logo desceu do veículo para se ajustar com seu agressor verbal, mas Gino agiu de forma covarde. Um homem ébrio sempre será um covarde. Sacou de sua faca nordestina, e rapidamente partiu para o ataque pelas costas. Arquelino percebendo a investida contra sua vida, tentou sacar seu revólver que estava coldreado, mas o revólver ficou preso ao coldre (provavelmente pelo cão ou pela massa de mira). Enquanto tentava sacar seu revólver, o agressor o apunhalava. E nos rápidos movimentos de ambos, Arquelino acabou tropeçando uma calçada e caindo para trás, batendo a cabeça ao chão. Não teve tempo de mais nada. A faca de Gino já o atingia de cima para baixo, na altura da clavícula, afundando no corpo até alcançar o coração. Arquelino não teve nenhuma reação e faleceu na calçada, onde permaneceu agonizando por breve espaço de tempo. Não imaginou que Gino fosse agir de forma tão covarde e torpe. Perdeu a vida.
Ali, do lado do Jeep, estava uma criança de 06 anos de idade, filho de Arquelino. Atordoada, descalça e despida, presenciara a morte do próprio pai. Era José Nilson, chamado por todos de Jonilson.
O que aconteceu em seguida foi um grande alarido por todo o povoado, e logo a genitora de Arquelino chegou ao local, com mãos na cabeça, em desespero. Gino ainda esbravejava de faca na mão, quando o irmão mais novo, Nego (Que tinha passado a noite bebendo com Gino), lançou-se contra Gino em um pulo veloz e certeiro, acertando Gino no peito com um golpe de capoeira, lançando-o ao chão que na queda deixou a faca cair (Nego era conhecido por sua agilidade corporal e acrobática). Em seguida Nego sacou seu revólver e jogou-se sobre Gino imobilizando uma de suas mãos, enquanto apertava o gatilho da arma com a outra mão, mas arma estava sem munição, enquanto se digladiavam, a mão do facínora, que ficou livre, alcançou a faca que estava ao chão e logo começou a esfaquear seu oponente. Nego foi atingido por sete golpes de faca na região do tórax. Gino levantou-se e deixou Nego estirado ao solo, agonizando.
Por que a arma de Nego estava sem munição? Há desses acontecimentos que nos impressionam ao ponto dos mais descrentes, acreditarem em destino e que somos de fato joguetes nas mãos de uma força maior. Nego estava em farra já há alguns dias. E naquela noite ele estava muito ébrio. Em um dado momento passou na casa de sua namorada e esta aproveitou um momento de distração de Nego e retirou as munições do revólver. Temendo que o namorado pudesse cometer algum desatino que o prejudicasse, resolveu de boa vontade preveni-lo do mal futuro e retirou os cartuchos da arma. Nego ao sair da casa da Namorada apanhou seu revólver e colocou na cintura sem se dar conta de que estava desmuniciado, nem tampouco sua namorada lhe deu ciência do que tinha feito. Tal fato foi decisivo para sua morte naquele fatídico dia. Um largo riso do destino se abriu como quem diz, comigo ninguém pode! Um desejo de praticar o bem, mas que causou mal grave e injusto. A namorada desejou o bem. Mas...
Então a rua já estava sendo tomada de curiosos. Uma cena de horror saltava aos olhos de todos. Uma mãe, um filho já morto e outro agonizando. O pranto e os gritos cortavam o ar e o coração de todos. Crimes vergonhosos e deploráveis. Teófila, destruída. Como Priamo, ao ver seu filho Heitor, sendo arrastado por Aquiles ao redor das muralhas de Tróia. Pais e mães não deveriam verem seus filhos morrerem.
Enquanto a mãe chorava, Gino permaneceu empunhando a faca suja de sangue inocente. É nesse momento que chega o terceiro filho de Dona Tiofa, Agenor Ribeiro, irmão das duas vítimas de Gino.
Poucos humanos compreenderão a atitude de Agenor. Diante daquela cena absurda, ele teve uma atitude incomum. Se uma atitude de grandeza ou covardia, deixo que o leitor decida. Já foi dito que Agenor voltou-se para Cristo. Talvez isso explique, talvez não. O fato é que a presença daquele homem preenchia os espaços. A ele bastava a palavra. Era um homem daqueles de antigamente, respeitado e considerado pela postura. Usava bem a palavra. O conheci em vida. Talvez seja por isso que Gino, quando o viu não o atacou, pelo contrário, estirou a mão e entregou a faca a ele, dizendo: “Agenor, matei seus irmãos. Aqui está a faca, agora me mate!”. O facínora baixou a cabeça e esperou o golpe de Agenor, que preferiu não executar Gino. Agenor somente disse a seguinte frase: “O que você queria era matar. Isso você já fez. Eu não sou o dono da vida para tirá-la de ninguém”. Gino insistiu para que Agenor o matasse, entretanto ele nada fez a Gino que calado se retirou do local.
Toda essa cena aconteceu na rua principal do povoado. Nessa mesma rua, existe um acesso para as minas de um local conhecido como “Área”. Gino tomou aquele acesso e subiu a rua sozinho, após dar origem a uma das páginas mais tristes daquele lugar.
Logo em seguida chegou notícia que Gino havia se jogado de uma imensa pedra. O povoado de Cabeludas é cheio de pedras gigantes, espelhadas por todos os lugares. Algumas dão impressão que são imensos edifícios, vistas de longe. É bem interessante. Poderia ser chamada de Selva de Pedras. Vale uma visita.
Então a notícia chegou e logo muitos foram verificar. De fato, Gino estava ferido na cabeça, alguns diziam que ele se lançou de cabeça, não se sabe se por remorso, como fez Judas ao trair Cristo, ou de cachaça mesmo. Bateu a cabeça ao chão rochoso, abrindo o crânio deixando exposto massa encefálica. Seus parentes, alguns do Limoeiro, outros da Gameleira, prestaram auxilio trazendo-o em uma rede como se morto estivesse devido ao tamanho e gravidade do ferimento. Na verdade, não existe testemunhas de que Gino se laçou do penhasco, ou se foi alguém que tentou matá-lo a pedradas ou pauladas. O que alguns relataram é que após a recusa de Agenor em esfaqueá-lo, começou a chegar muita gente ao local, e o homicida vendo a multidão crescer, temeu e saiu dali apressado. A maneira como o encontraram indicava que ele havia se atirado ao chão do alto de uma pedra, mas pode alguém ter seguido ele e tentado matá-lo a pauladas, já que o crime comoveu a todos.
Gino sobreviveu e foi preso na delegacia de Sento Sé velho. Revelo aqui que tomei conhecimento dessa história quando pesquisava sobre a cidade antiga de Sento Sé, que hoje se encontra submersa, devido a construção da Barragem de Sobradinho. Gino ficou preso no prédio da delegacia por vários anos, inclusive, por ocasião da construção da nova Sento Sé, Gino foi o primeiro preso da nova cidade, inaugurando a cadeia pública que ainda hoje permanece no mesmo local. Professor Antônio, militar aposentado, me relatou que Gino ficou com sequelas devido a pancada que recebeu na cabeça. O mesmo professor enfatizou a violência e a valentia daquele homem.
Pois os anos se passaram. A vida andou pra frente. Mas acontece que fatos do passado determinam alguns acontecimentos do futuro, e foi justamente o que aconteceu. Aquele garoto sem roupas, ao pé do Jeep, que viu seu pai ser assassinado, cresceu. Era Jonilson.
Após a morte do pai, os seis órfãos, foram cuidados pelos tios e pela avó. Todos ajudaram na criação dos filhos de Arquelino, a viúva passou por maus bocados. Jonilson trabalhou muito tempo com seu tio Agenor de quem recebeu grande auxilio atenção e educação. Mas o garoto à medida que crescia observava o sofrimento da mãe. Cresceu dizendo que iria vingar a morte do pai.
Relatou-me uma testemunha ocular dos fatos, que certa feita Jonilson, já rapazote, enquanto arrumava uma mercadoria em um caminhão de Agenor, calado, deu uma pausa no serviço e do nada suspirou e exclamou: “No dia que eu encontrar o Gino, ou ele vai matar mais um da família, ou eu matarei ele”. Então foi dito a ele, pela testemunha: “Moço, tu é jovem, tem a vida toda pela frente, deixa isso pra lá”, ao que Jonilson respondeu: “Você não sabe o quanto minha mãe sofreu para me criar juntamente com meus irmãos”. A vida, como dizia Guimarães Rosa, e uma reflexão de seu personagem Riobaldo, na obra Grande Sertão: Veredas: “O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam...”. Entendem porque não é tão simples julgar a atitude de seu Agenor, diante do assassino dos seus irmãos? Uns nascem grandes, outros nascem pequenos e se tornam grandes. Mas todos dentro dos limites da sua grandeza. Como os ladrões, crucificados ao lado de Cristo, ambos nas mesmas condições de dor e sofrimento. O da esquerda zombou, o outro, da direita, viu inocência e pediu misericórdia. Assim são os homens, agem diferente em momentos cruciais.
Assim foi nos julgamentos de Sócrates e Galileu Galilei. Aquele preferiu morrer a negar suas verdades, este preferiu negar uma verdade para não ser queimado na fogueira da Inquisição. Atitudes diferentes de homens diferentes em épocas diferentes, todavia atitudes humanas. Inclusive, o que se conta sobre Agenor, é que ele, antes de se tornar evangélico, era um homem terrível de perigoso. Sempre andava armado de revólver e punhal na cintura. Quando bebia, fazia questão de buscar uma briga. Mas a conversão ao cristianismo o transformou substancialmente.
Gino foi libertado após 13 anos de prisão. Zelito, seu tio, e irmão de Pedro Mulungu, foi até a cidade de Sento Sé conversar com o prefeito Osvaldo Lopes Ribeiro, primeiro prefeito da nova cidade, e com o juiz Dr Djalma, para darem liberdade a Gino. O juiz fez uma exigência, que ao conceder a liberdade ele teria que sair da região e assim foi feito. O tio de Gino o levou para São Paulo. Existe a notícia que em São Paulo ele andou aprontando e os próprios parentes o mandaram embora para o sertão. Devolveram. Retornou para a cidade de Campo Formoso. Na verdade, ele ficou entre Campo Formoso e a Serra da Carnaíba, município de Pindobaçu, região de garimpo e terra original da tribo dos Paiaias, indígenas do sertão baiano que tanto embaraçaram os jesuítas no Brasil Colônia na Bahia. Andou aprontando também na região de Campo Formoso, num povoado chamado de Lajes. Das Lajes saiu fugido para Sento Sé novamente, e fora preso por dois meses, por descumprir acordo firmado com Dr Djalma de que não voltaria à cidade de Sento Sé. Após dois meses, saiu da cadeia e retornou para a cidade de Campo Formoso. E lá o destino o aguardava para resolver suas pendências.
Gino chegou novamente na sede da cidade de Campo Formoso. Era o ano de 1981.
Então o garoto José Nilson tomou conhecimento que o assassino do seu pai estava de volta ao sertão, na cidade de Campo Formoso e que inclusive já tinha assustando a população com bebedeiras e desordens. As pessoas estavam assustadas e temerosas com ele. Boatos do duplo homicídio corriam por toda região de garimpo daquele homem, ex-presidiário e perigoso. Gino na verdade se sentia confortável com a fama de valentia, criada pela boca do povo. No sertão existe o orgulho, em alguns elementos, de serem o maioral da valentia.
O garoto, Jonilson, já com 19 anos de idade, não conhecia Gino. Estava ansioso por conhecê-lo. Fazia planos para encontrar o responsável pela tragédia e malogro da sua família.
Foi então que numa certa manhã, alguém disse a Jonilson: “Garoto, Gino, o assassino do seu pai, acabou de chegar na cidade e está bebendo ali num bar”, Jonilson de imediato pediu ao seu interlocutor que o levasse até o local e o mostrasse. Ele não conhecia Gino pessoalmente. O viu quando tinha seis anos de idade em uma cena infernal, quando do assassinato do seu pai. Era necessário que alguém mostrasse a ele, o carrasco que mergulhou sua família em mantos de sofrimento. Jonilson somente sabia da imensa cicatriz que Gino tinha na testa. Era o único sinal.
O levaram até o bar e mostraram a pessoa de Gino a Jonilson. As informações que tenho não me asseguram da reação de Jonilson ao ver Gino. Mas talvez ele tenha olhado e permanecido à distância, medindo aquele homem. Imaginando o filme de sua vida. Ele havia esperado tempo demais por aquele momento, e agora Gino estava ali, diante dele. Gino não imaginava que no mesmo estabelecimento estava o filho de Arquelino, assassinado covardemente por ele.
Jonilson foi até Gino e lhe pagou uma bebida com altivez de espirito. Conversou com Gino coisas triviais para não mais lhe ser um estranho. Após esse primeiro contato inicial, Jonilson se retirou do bar. Não fez nenhuma ameaça a Gino ou fez qualquer outro ato que levantasse suspeita. Somente confirmou que era ele, não restava dúvida, a informação dada e a cicatriz asseguravam a identidade de Gino. Saindo dali Jonilson foi até a sua residência e pegou uma faca na cozinha de sua mãe. Escolheu a melhor faca em tamanho e apoio ao punho. Enrolou em um papel que serviu como bainha e colocou em sua cintura pelas costas, de modo que olhando não se percebia o volume na cintura. Voltou ao bar, e lá estava Gino, bebendo e jogando conversa fora.
Algumas pessoas que sabiam da história ao observarem os dois juntos, ficaram aflitas, pois Gino não fazia ideia da origem daquele garoto. Herblandes Ribeiro, irmão de Agenor e tio de Jonilson, afirma que o garoto sempre falou em se vingar usando faca. E foi o que aconteceu. Para o garoto, o assassino do seu pai também merecia morrer de forma equivalente.
Jonilson se armou e adentrou ao bar se aproximando mais uma vez de Gino. Beberam, conversaram e riram, contudo, Jonilson tinha um único pensamento, vingar a morte do seu pai.
Muita coisa já foi dita sobre vingança. Há grandeza na vingança? Ou ela é prova de remorso mal curado? Alguns homens não abdicam do direito de vingança. Pra alguns o Direito Natural, que clama no seio de cada humano, concede a benesse da vingança. É verdade que o ordenamento jurídico brasileiro não admite a vingança. Coisa medieval, pensam alguns. O Art. 345 do CP, cunha como crime de Exercício Arbitrário das Próprias Razões, ou seja, fazer justiça pelas próprias mãos. O Direito brasileiro condena, mas no sertão, há muito tempo, em determinados rincões, afastados de tudo, a vingança é vista como justiça natural. O garoto Jonilson fazia parte desse grupo, cuja vingança era um direito natural e justo, diferente do seu tio Agenor Ribeiro. Justiça é o que os homens ditos civilizados buscam, já os matutos afastados desse universo letrado, busca equidade, coisas diferentes, acredite. É uma espécie de Lei de Talião, o Código de Hamurabi, aperfeiçoado em seu aspecto mais reto, “olho por olho e dente por dente”.
Assim, quando já fazia algum tempo que eles bebiam, Jonilson pediu para tirar uma fotografia com Gino. Certamente queria guardar como trunfo após matá-lo, tamanha era a convicção do garoto em seu objetivo. Gino se recusou dizendo: “que não se abraçava com macho, e que os últimos homens com quem se abraçara, foram mortos por ele, e onde encontrasse outro membro da família também daria cabo da vida”. Aquilo era clara demonstração de um ser embrutecido, tosco e violento. Jonilson não teve mais dúvidas do seu ato iminente.
Preparou-se para a execução do seu intento, antes, disse a Gino: “você sabe quem sou eu? Eu sou filho do homem que você matou, Arquelino. E sua hora chegou”. Dito isso, Gino sacou de seu punhal, e preparou-se para o duelo, mas Jonilson embalado pela juventude e motivado pelo sentimento de vingança, já com sua faca peixeira em punho, num ato continuo, cravou a faca no peito de Gino. Jonilson não retirou o metal do peito do inimigo, permaneceu com ela cravada e fazendo pressão para enterrar ainda mais até desaparecer a lâmina por completo. Se existe honra na vingança, este é um protótipo perfeito.
Gino agonizava, pagando seu horripilante pecado cometido no ano de 1968, não imaginava que aquela criança, nua e descalça, que viu o pai ser assassinado, agora estava ali, 13 anos mais tarde, cravando uma faca no peito do responsável por sua orfandade e segurando o objeto perfurocortante no interior do algoz de outrora, que morria agonizando. Pronto. Estava sagrada mais uma vingança nas terras do norte. Pai e tio estavam vingados. Depois de morto, se verificou que no cabo do punhal de Gino, tinha um nome inscrito Raimundo soldado. Nome de um soldado, hoje na reserva, morador de Sento Sé, a quem Gino tinha como desafeto e provavelmente pretendia matá-lo.
Até parece que era destino já traçado. Da mesma forma que Édipo estava condenado a matar o próprio pai e desposar sua mãe, Jocasta. Édipo fugiu do seio da sua família quando tomou conhecimento dessa profecia maldita, mas os acontecimentos e o destino o levaram ao cumprimento da profecia, mesmo inocente, matou seu pai e casou-se com sua mãe, não pôde fugir do seu destino. É um conto da Mitologia grega, bem verdade, todavia a história dessa vingança não carrega o mesmo significado de enigmas? Provavelmente sim.
Testemunha me relatou que Jonilson não retirou a faca do peito de Gino. O fez conhecer a dor física da lâmina cortando o corpo. Gino foi ao chão, tombando sobre o próprio sangue. Jonilson então empreendeu fuga, ganhando a mata. Ninguém ousou ir atrás dele. Boatos logo correram por aquelas terras de que um crime de vingança fora cometido. Os comentários foram os mais variados. Foi noticiado no jornal “A tarde” da Bahia. O garoto fora descomunal, uns diziam. Tempos depois um advogado, muito conhecido em Campo Formoso e região, José Telesphoro, o defendeu. O fato é que Janílson jamais foi preso. Para parte da população de Campo Formoso a atitude do garoto trouxe paz; para outras pessoas foi um crime bárbaro; para outras, a alta convicção do jovem era digna de elogios. Estava vingada a morte de Arquelino e de Renato (Nego), ambos filhos de Dona Tiofa.
Jonilson depois disso foi para Goiás, passou um tempo e depois retornou. Mas antes foi até o povoado de Cabeludas e acendeu uma vela no túmulo do seu pai e do seu tio, como quem foi prestar contas de uma promessa feita internamente em algum momento da sua existência após o assassinato do seu pai. Jonilson faleceu recentemente na cidade de Campo Formoso devido a problemas de saúde.
Julgue você, amigo leitor, a postura de Jonílson. Se de grandeza ou não. E quanto a seu Agenor, um mensageiro de Cristo, sua postura também merece alto relevo. Se coloque no lugar de ambos, você faria o mesmo que eles? O que você faria? 13 anos depois vingaria morte do seu pai, ou pouparia a vida daquele homem, com fizera seu Agenor?
Essa história ainda agita a imaginação dos velhos daqueles tempos. Obviamente a atual geração não conhece. Talvez nem mesmo os moradores da antiga Sento Sé, onde Gino fora o único preso por anos, sabiam dos detalhes dessa triste, mas grande história.
Elielton Cordeiro da Paixão.
Bacharel em Segurança Pública – APM/PMBA
Professor de História – UPE/FFPP


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