Por tenente Cordeiro.
Que evento fascinante!
Não foi somente um encontro de pessoas para tocarem acordes de sanfona, mesmo diante do panteão dos maiores expoentes da sanfona em nossa região, muitos de projeção nacional e internacional, o encontro representou um culto ao forró genuíno. O evento excedeu a si mesmo, indo direto ao seio do povo de Bonfim. É como se a memória despertasse ao modo antigo de fazer São João. O local, a música e o povo, sincronizaram-se dando a impressão de que Bonfim havia retornado ao seu passado, provando que a tradição ainda pulsa no sangue dessa gente.
O evento foi belo. Belo pela organização e por tudo que foi apresentado. O revezamento de dezenas de sanfoneiros no palco, tocando forró autêntico e a presença da sociedade de bem, espelhou o porquê de Senhor do Bonfim, ainda permanecer como marco de resistência do forró tradição. Mas teve algo igualmente magnânimo e poderoso originado deste evento. Se você desejar saber o que foi, continue lendo que já te conto.
Estava de serviço naquela noite, juntamente com meus companheiros, garantindo a segurança do evento e de toda a Villa Nova da Rainha. Observamos cada movimento e comportamento daquela multidão pacifica de nativos, em dois pontos diferentes da cidade: Praça Nova do Congresso e Catedral Diocesano. Nesses locais as apresentações de forró começaram bem cedo com um público gentil.
Por volta das 23h, fizemos a escolta do povão que se deslocou da frente da Catedral Diocesano sentido Praça Nova. Saíram pela Rui Barbosa contornando pela 02 de julho, tocando e dançando em animação contagiante até chegarem à Praça Nova, quando se deu a abertura oficial do evento. Estivemos atentos de forma ostensiva captando e prevenindo o comportamento desviante. Entretanto, tudo aconteceu de forma ordeira, mesmo com um público presente de cerca de 10 mil pessoas, o que nos surpreendeu, já que o 6ºBPM, estava cobrindo eventos paralelos, como a festa tradicional de Ponto Novo e a Lavagem de Queimadas. Esperávamos que o público se dividisse. Contudo compreendemos o que havia acontecido.
Exceto eu, que trabalho em Bonfim há 06 anos, os policiais de serviço daquela noite são todos bonfinenses. E todos perceberam que o público presente era composto de senhores e senhoras, com suas famílias. Pessoas que não são vistas comumente em festas corriqueiras nas noitadas da cidade. A Praça Nova foi tomada pelo povo que magicamente imitou o passado (tempo que o São João acontecia nesta mesma praça). Quando o relógio marcou 04h00 da madrugada, as apresentações no palco se encerraram, foi aí que iniciou o fenômeno extraordinário e metafisico, quase espiritual. Um encanto!
O som do palco cessou. Bumbos, repiques, clarinetes, saxes, trompetes e trombones de vara se ajustaram no asfalto. O povo corria das imediações da praça em direção aos instrumentos. Corriam em desespero. Era a Alvorada que se iniciava. Pessoas se aglutinaram na frente do palco se apertando, desejando formar aquele imenso cordão humano. Milhares de pessoas. Posicionamos as viaturas na retaguarda e outros locais estratégicos para acompanhar aquele estouro de seres humanos cantantes e tomados por uma alegria sobrenatural, parecia até feitiçaria ou milagre, era uma alegria diferente.
Começaram o cortejo. Pulmões inflados e batidas nas caixas arrancavam melodias acompanhadas pela massa humana. Seguiram em direção ao Colégio Sacramentinas, passando pela Praça Alexandre Góes. A multidão cantava se abraçando. Eram pulos, gritos, danças... Alegria, alegria.
Acompanhando tudo aquilo, logo entendi que o São João estava começando naquela madrugada, pois temos como referência o 28 de maio, aniversario da cidade, mas ali era madrugada do dia 26 ainda.
Contornaram o Hotel Novo Leste, saudando a Estação Ferroviária, construções históricas de Bonfim. Por onde a massa se deslocava os moradores acordavam e saiam nas portas com risos nos lábios. O chão vibrava. Todos eles sabiam o que era aquilo. Era o passado mandando lembranças das tradicionais alvoradas. O povo acordou e saiu no sereno para ver aquela Alvorada fabulosa, uma multidão com vida própria engolindo as ruas de Bonfim. Para nós, policiais, em certos momentos dava até receio e temor. Eram milhares de pessoas. Às vezes, quando o farol da viatura que vinha à retaguarda, brilhava por cima da multidão, dava para ver a poeira em forma de nuvem sobre aquele mar de gente. Eles passavam perto do Hotel Vitoria, na Rua João Rodrigues, no cruzamento com a Rua Visconde do Rio Branco, ali a massa parou de se movimentar, após um breve lapso de tempo, como se estivessem fazendo uma deferência, e logo depois aparentavam que iria rumar sentido Rádio Caraíba, mas como uma revoada de andorinhas, que muda de direção de maneira orquestrada, eles volveram para a direita. Tivemos que voltar a viatura.
Na Visconde, sentido Batalhão, a massa retumbou um grito diferente. Ali, bem no cruzamento, tem um campinho de futebol, conjugado com um calçamento, a multidão tragou aquele espaço gritando “U-U É ESPADEIRO”. Parecia um uivo de animal feroz. Enquanto gritavam, os punhos sacudiam no ar. Entendi aquilo. Era a memória coletiva se manifestado naquelas pessoas, filhas e filhos de Bonfim. Aquele cruzamento, por toda uma vida, representou o último dia de São João de Bonfim. Era o local que se realizava a tradicional “Fogueira das Moças”, em homenagem a São Marçal. Aquela enxurrada de pessoas rugia cada vez mais forte, como quem passava alguma mensagem para o além, aquilo foi místico. Era uma espécie de choro e lamento daquele montão de gente.
Naquele local, no passado, no dia 30 de junho, se levantava uma árvore de médio porte, cheia de presentes e brindes, e se acendiam um fogo em torno do caule. Enquanto o fogo consumia a árvore aos poucos, as pessoas dançavam quadrilha e se animavam dando adeus ao São João. Na iminência da queda da arvore, as moças se reuniam em torno da fogueira e quando ela vinha ao chão, as mulheres corriam para pegar os brindes. Depois disso, os espadeiros se reuniam e iniciavam a última Guerra de Espadas fechando o São João de Bonfim. Como se ver, a multidão chorava e protestava naquele momento por essas tradições que foram tomadas do povo!
Dali o povo desceu pela Travessa da UNOPAR e caminharam para a Rua São Vicente, até chegar à Praça da Lagoa (Simões Filho). Lá se formou um cordão único de pessoas, desde a Travessa da UNOPAR até o Canal da Malária. Era um estrondear de gente.
Na Praça da Lagoa, a charanga tocou mais forte. Aquele lugar tem uma vibração diferente. Foi lá o começo de tudo. Bonfim respirou pela primeira vez naquele local. Ali é o berço. Foi onde a parturiente deu à luz, e o nome primeiro se chamou Rancharia da Tapera. Aquela praça era Bonfim, quando criança. Tropeiros, padres, e garimpeiros se estabeleceram naquela baixada de acumulo d’agua, escoada da Serra da Maravilha, e construíram essa cidade. Nessa altura, o formigueiro se juntava aos garotos da charanga, e estes correspondiam soprando seus instrumentos com entusiasmo e ruflando suas caixas no limite de rasgar as películas.
A multidão impactado pela vibração do lugar, cantou alto. Era uma celebração. A emoção tomou conta das pessoas. Vizinhos já estavam foram das casas acompanhando tudo. Os corações palpitavam, isso era visto nos nas faces. Não disse Salomão que “o coração alegre aformoseia o rosto”? (Provérbios 15:13). Pelo tamanho do riso se via o tamanho da satisfação das pessoas na Praça da Lagoa.
A multidão seguiu pela Malária, tive receio de uma tragédia. Pensei que o concreto que cobre o canal iria ceder, não iria suportar a imensa quantidade de pessoas. O povo escoou pelas vias laterais, dividindo o peso. A charanga estalava como pássaros novos em seus primeiros cantos, muito força e vontade nos pulmões. Olhei para minha retaguarda e vi o cemitério São Marcos, imaginei... Quantos dos que ali descansam são responsáveis por aquela alegria? Quantos que ora jazem, construíram o São João e a cidade de Bonfim? É como se ali estivesse acontecendo uma espécie de encontro entre vivos e mortos, refletidos na alegria diferente que bailava naquela gente. Coisas assim não se explicam, somente se sente.
Entraram pela direita, encontrando a Rua José Jorge, subiram em direção ao alto da prefeitura, os primeiros laivos de sol, combatidos pelas nuvens, já se mostravam, quando os primeiros componentes da multidão despontavam na Praça da Bandeira, correndo e pulando, misturando forró com frevo. Uma alegria de passarinhos pela manhã.
Quando o grosso do povo saiu daquele gargalo da Rua José Jorge, envolveu o prédio da prefeitura, pelas calçadas e ruas laterais, saudando aquela construção simbólica de Bonfim, construída em 1856 e reformada completamente em 1891, por Dr José Gonçalves, 1º governador republicano da Bahia. Dali tomaram a Praça Juracy Magalhães. Era um formigueiro humano se escoando por toda a parte, como água que se infiltra nos espaços, até chegarem na Catedral Diocesana. Ali um mais empolgado gritou: Viva a Senhor do Bonfim! E a multidão respondeu: Viva!
A Catedral Diocesano guarda um lanço forte com a gênese da cidade, talvez tenha sido lá que os primeiros habitantes, tenha erguido a cabana de palha que deu origem a esta cidade. Daquele local, quando Bonfim ainda era Rancharia, Arraial ou mesmo Villa, era possível ver com clareza a lagoa e os animais nos currais, em descanso para prosseguir viagem em dias posteriores. É um templo, palco de muitos acontecimentos marcantes na história de Senhor do Bonfim, a exemplo do assassinato do Cônego Pedro Hugo Teixeira, 18 de setembro de 1914, dentro da própria catedral. É sem duvidas, a construção mais querida pelos moradores de Bonfim, que teve sua segunda construção no ano de 1750, com uma cobertura de palha. Lá abriga a imagem do padroeiro, Senhor do Bonfim, desde o ano de 1774. Esta mesma imagem foi atacada e danificada parcialmente, no ano de 2012, por um doente mental, que invadiu o templo causando prejuízos terríveis ao patrimônio religioso e histórico da cidade.
A multidão reverenciou a Catedral. Do alto daquelas torres, parafraseando Bonaparte, centenas de anos contemplavam aquele povão feliz dando boas vindas ao São João mais puro de toda a Bahia. A charanga não cessava. Os garotos sopravam ainda mais forte os instrumentos, envoltos pelo povaréu, como em um casulo, empurrando-os para frente.
Aquele povo todo era uma coisa única, um cardume! Uma mancha uniforme. Um gigante! Era o povo de Bonfim se exaurindo em sua essência. Cantaram por mais um tempo e se se locomoveram sentido Praça Nova. Na Praça Nova eles se dissiparam, como neblina que se esmaece com a luz do sol.
Sossegaram. Muitos seguiram se abraçando enquanto caminhavam para suas residências, alguns outros ainda ficaram em gargalhadas sentados nos canteiros. O sol estava chegando, acabava com a noite. Mas a magia da Alvorada permaneceu no ar.
O Encontro de Sanfoneiros foi magnifico. Seus idealizadores merecem reconhecimento público. Um grande serviço cultural para Senhor do Bonfim. Todavia, dele se originou uma retumbante magia para milhares de pessoas que encorpavam aquela sublime Alvorada. Alegria nos corações! Foi isso que percebi, somada a uma pitada de ressentimento pela tradição que está se escorrendo pelas mãos. Percebi claramente quando a multidão vociferou pelo fim da “Fogueira das Moças”. Aquilo foi comovente.
Aos bonfinenses, digo: Primeiro foi a “Fogueira das Moças”, depois as “Espadas”... Só Deus qual será o próximo alvo.
Elielton Cordeiro da Paixão – Ten PM.
CFO PM -APM/BA
Prof. de História – UPE


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