(...) Após alguns instantes ousei falar. Ajustei o timbre e falei: “Ao ouvi sua voz me relatando tais coisas, com riqueza de detalhes, chego a sentir um aperto no peito por tanta coisa que foi perdido por geraƧƵes inteiras. Tudo jĆ” foi diferente, com pessoas diferentes e valores diferentes. Hoje as pessoas passam apressadas pelas ruas e nĆ£o imaginam que em cada esquina; em cada casarĆ£o, hĆ” um forte indĆcio dos antepassados, e que para chegarmos atĆ© o hoje, muitos braƧos ergueram cada tijolo dessas construƧƵes e abriram cada palmo de rua”. Nesse momento a imagem, parando de levitar, assentou seus pĆ©s ao chĆ£o – pĆ©s ocultos pelas vestes acinzentadas – apontou o cajado para a frente, me fazendo olhar para o inĆcio da rua onde estĆ”vamos. Era a Rua Visconde do Rio Branco. Paramos bem próximo ao posto do INSS, Ć esquerda dava pra ver, lĆ” no alto, a lendĆ”ria e mĆstica Estação FerroviĆ”ria. Olhei acompanhando o movimento do cajado projetando a vista na confluĆŖncia com a Rua Ruy Barbosa, nas proximidades da PraƧa Austricliano de Carvalho. EntĆ£o a alma deu indicativo que falaria algo. Sempre que ela falava, eu contraia os ombros e baixava a cabeƧa, por temor e tremor; eu era uma poeirinha ali perto daquele ser. EntĆ£o ele disse: “Mortal, nós estamos pisando na mĆ£e de todas as ruas dessa cidade. Aqui estĆ” o caminho mais antigo, a gĆŖnese da Rancharia da Tapera”. Meus pensamentos embaralharam, aquilo nĆ£o me parecia lógico, mas nĆ£o atrevi fazer comentĆ”rios. EntĆ£o a imagem fez sinal para andarmos para frente.
Pensei... MĆ£e de todas as ruas... GĆŖnese da Rancharia da Tapera..., mas a Visconde nĆ£o Ć© uma rua tĆ£o importante assim, imaginei. Minhas confabulaƧƵes chegaram ao fim quando aquela voz rouca comeƧou a se propagar novamente: “Soldado, o que hoje vocĆŖs chamam de: Avenida AntĆ“nio Carlos Magalhaes, Rua BarĆ£o de Cotegipe, Rua Rui Barbosa, Rua Visconde do Rio Branco e Rua Carrapichel, nĆ£o guardam nenhuma referĆŖncia com a real origem desse caminho. VocĆŖs humanos, costumam deturpar a doƧura das ‘origens’, subtraindo os batismos dos primeiros homens. Esta rua que agora pisamos, Ć© o que os bandeirantes, e pioneiros desta terra, chamaram de ESTRADA DAS BOIADAS.”
O meu coração palpitou mais forte, tudo estava se clareando, de fato existiu essa Estrada das Boiadas, inclusive – pensei – hĆ” pouco tempo, antes da Construção da Rodovia Lomanto Junior (BR 407), inaugurada em 1967, a antiga Estrada das Boiadas, se chamava: Estrada Real Bonfim-Juazeiro. Em minha frente a imagem gesticulava com sua cabeƧa, envolto num manto, percebendo a compreensĆ£o que me tomava o entendimento. Abri um riso de canto de boca. Riso de agradecimento. A imagem continuou a falar. “A Visconde, como vocĆŖs a chamam, foi aberta por bois, mulas e cavalos. Os pĆ©s desses animais afundaram o chĆ£o matando raiz e aniquilando sementes postas ao solo. A estrada se fez com a descida e subida desses animais atĆ© os Rio dos Currais. Era uma estrada imensa que partia do litoral atĆ© a margem direita do Rio. Ela foi a veia aberta, que irrigou o povoamento do sertĆ£o, dando origem a dezenas de cidades, inclusive a Villa Nova da Rainha.”
Levei a mão ao queixo e refleti. Cada palavra ou frase daquele ser, se assemelhava ao pincel da canção Aquarela. Tudo se desenhava revelando o passado. Como eu poderia olhar para a Rua Visconde do Rio Branco da mesma forma? Mesmo sabendo da importância daquele Estadista para o Brasil, esta rua, por onde passo quase que diariamente, não serÔ mais a mesma. Uma nova conotação nascia ali. Agora tudo faz sentido. A Visconde é a mãe e o pai de todos os caminhos de Senhor do Bonfim, porque foi através desta rua que tudo passou a existir. Antes eu enxergava somente os trilhos de ferro, como via única a dividir a cidade em duas. Agora vejo que muito antes da estrada de ferro chegar por aqui (1887), existiu uma via ancestral, um caminho que trouxe os bois, garimpeiros, padres e aventureiros, ela sim foi a primeira referência de Senhor do Bonfim.
Na altura da Radio CaraĆba, a imagem parou na calƧada oposta, e relatou: “Daqui, antes das existĆŖncias dessas casas, se contemplava a imensa Rancharia onde repousavam as pessoas que tocavam as boiadas. Era uma cabana coberto de palhas; um rancho com duas laterais compostas de madeiras e palhas tranƧadas, que os Ćndios, em sua lĆngua, chamavam de Tapera. O Ćndio gentio auxiliava os tropeiros guiando-os e tocando suas tropas de bois. A Rancharia ficava mais no alto, enquanto os animais se concentravam mais a baixo, próximo da Lagoa... e após matarem a sede dos animais, e descansarem um pouco, rumavam sentido Rio SĆ£o Francisco; ou, quando em caminho inverso, sentido litoral, rumavam atĆ© chegarem na Casa da Torre, de Garcia d’Ćvila, dono de todo o Norte da Bahia Ć Ć©poca. Como se ver, mortal, a origem da antiga Estrada das Boiadas nĆ£o Ć© lembrada em absolutamente nada na atual geração, nĆ£o hĆ” menção ao Boi, ou ao Tropeiro em seu traƧado urbano”. Concordei tacitamente com aquele espirito, que falava com certo desprezo pelas condutas humanas. As geraƧƵes posteriores, nĆ£o prezam pela construção dos antepassados, somente usufruem de suas criaƧƵes. Esse egoĆsmo do homem nos rouba a chance de conhecer nossa origem. A origem de Bonfim foi o Boi e o Tropeiro, primeiramente; depois o padre, seguido pelos aventureiros Ć”vidos pelo ouro de Jacobina e do Salitre de Campo Formoso.
Rua Visconde do Rio Branco... Senhor – falei virando para a Rua Carrapichel – por que, após o pontilhĆ£o, no final da Visconde, aquela rua recebe o nome de Carrapichel? A imagem, tocando o cajado ao chĆ£o, disse: “Aquela rua se chamava, atĆ© pouco tempo, Rua Juazeiro, pois era por ali o acesso Ć cidade de Juazeiro. Passou a se chamar Carrapichel devido o constante acesso ao Distrito de Carrapichel, permanecer por ali, mesmo após a construção da BR 407”. Dito isto, aquela figura enigmĆ”tica, acessĆvel somente aos meus olhos, fez uma breve pausa enquanto uma senhorinha, muito idoso por sinal, passou descendo a rua. A imagem balbuciou algumas palavras rapidamente, nĆ£o entendi muito bem, mas nĆ£o tive a insolĆŖncia de perguntar, todavia entendi quando ele disse, fazendo alusĆ£o Ć senhorinha: “uma descendente de Ceciliano de Carvalho”, e logo se calou voltando-se para mim: “veja, mortal, como as coisas estĆ£o em constante transformação entre os humanos. Nada Ć© absoluto entre os vivos, exceto suas crenƧas. Todos se findam, mas suas heranƧas permanecem. Bonfim nĆ£o sabe, mas suas festas e mĆŗsicos, sĆ£o heranƧas vivas de Ceciliano de Carvalho, atĆ© mesmo esses meninos que agitam as madrugadas no perĆodo junino, nas alvoradas com suas charangas, tudo isso foi posto por Ceciliano, um gĆŖnio dessa terra”.
Logo após ele falar, acebei me importunando com a condição pragmÔtica do ser humano. Nos tornamos seres pragmÔticos e relegamos a sensibilidade. Sem sensibilidade apenas duramos enquanto o tempo nos consome. E dessa maneira vamos ignorando a construção da vida humana. Não temos a exata noção, quando passamos em frente ao prédio da União e Recreio, ou da 25 de Janeiro, o que de fato representou essas instituições com suas filarmÓnicas para os antepassados dessa terra. Hoje estão reduzidas ao nada pelos jovens, mas jÔ foram os pilares da diversão e orgulho bonfinense. O tempo vai mudando os gostos e as preferências. União e Recreio... lÔ naquela esquina, envelhecida... é de cortar o coração! Os maiores bonfinenses se abrigaram ali.
JĆ” próximo Ć praƧa Austricliano de Carvalho, passou um Ć©brio e resolveu gracejar comigo, reverberando que eu estava louco. “E este fala sozinho. Ć cada doido nessa cidade”, disse ele. Senti vontade de sorrir, mas a presenƧa daquele ser; aquele campo de forƧa de milhares de pixels, nĆ£o me permitia tamanha ousadia. Apressei o passo para me livrar do Ć©brio que desceu a Visconde soltando pulhas com os transeuntes. Quando me vi livre do Ć©brio, olhei para frente e contemplei a Catedral Diocesano. A catedral... O Ć©brio... Lembrei! Lembrei do assassinato do CĆ“nego Hugo em 1914. Gesticulei com as mĆ£os em busca da imagem, queria saber tudo sobre aquele acontecimento trĆ”gico da história de Bonfim. Girei para todos os lados procurando a imagem, no entanto nĆ£o mais estava em minha companhia. Fiquei ainda correndo os olhos pelos espaƧos, em pĆ© sobre a praƧa, mas sem sucesso. A imagem havia se retirado. Decidi retornar ao quartel. Meio frustrado, tomei a Rua Visconde sentido inverso.
Comecei a rememorar, enquanto caminhava. Entendi que na verdade a Rua IrecĆŖ, na margem direta do canal da malĆ”ria, e a Rua Visconde do Rio Branco, na margem esquerda, e mesmo a Rua SĆ£o Vicente, surgida praticamente sobre o Canal da MalĆ”ria, se traduzem no mesmo caminho denominado Estrada das Boiadas, que na atualidade, na Ć”rea urbana de Bonfim, comeƧaria no chamado “Barro” e sairia na Rua Carrapichel, e dali, margeando a Serra da Maravilha, se chegaria atĆ© Carrapichel, e depois ao Catuni, atĆ© despontar nas terras do cacique Jaguarari... e dali ganhar o Vale do SĆ£o Francisco.
Continuei refletindo sobre a Rua Visconde. Meditei nas revelaƧƵes da imagem. Ć tudo verdade, pensei. Desde a Estrada do Barro, próximo ao contorno da Coelba, que tambĆ©m fazia parte da Estrada das Boiadas, atĆ© a Rua Carrapichel, nĆ£o hĆ” nenhuma alusĆ£o aos elementos originĆ”rios do povoamento e da origem de Senhor do Bonfim. Tropeiros, religiosos, bandeirantes, indĆgenas, escravos e aventureiros das minas de Jacobina, nenhum deles estĆ” contemplado nos novos nomes dessas ruas. Ć uma incoerĆŖncia, disse comigo mesmo. JĆ” chegando no quartel, atravessei a via, de uma calƧada a outra, e lĆ” no fundo exclamei, Estrada das Boiadas... fostes teu primeiro nome. Tu Ć©s mĆ£e de todas as ruas. Em ti surgiram as primeiras habitaƧƵes dos homens precedentes. Hoje estais cobertas de asfalto e paralelepĆpedos, mas os cascos dos animais, e a planta dos pĆ©s indĆgenas, foram os que te chamaram Ć existĆŖncia. Abri um riso de satisfação com aquela descoberta. De fato, o que o coveiro havia dito estava se cumprindo, os pĆ©s da curiosidade estavam recebendo as informaƧƵes sobre a terra do Bom ComeƧo. Pisar naquele tĆŗmulo, bi-centenario, lĆ” no SĆ£o Marcos, foi ato da ProvidĆŖncia.
Recordei o que disse a imagem certa feita, expondo a quantidade de informaƧƵes e fatos desconhecidos e perdidos, muitos que nĆ£o podem ser revelados, outros que o “alĆ©m” cria a possibilidade para os humanos conhecerem. Naquela ocasiĆ£o ele falou sobre Champollion e a Pedra de Roseta, deixando evidente que hĆ” certos mistĆ©rios, quando permitidos, sĆ£o revelados das mais variadas formas. Ao entrar no quartel, tomei nota de algumas coisas e fiz dois lembretes em bloco de anotaƧƵes. O primeiro era sobre o assassinato do cĆ“nego, e o segundo, tambĆ©m era sobre outro assassinato, o de Walfredo GonƧalves, em 6 de dezembro de 1977, em sua residĆŖncia na praƧa Nova do Congresso. Assassinatos e acontecimentos jĆ” apagados e transformados em reminiscĆŖncia, mas que ao seu tempo, abalaram a cidade de Senhor do Bonfim. Na próxima aparição do espectro, indagarei sobre tais fatos.
OBS: Esse texto é parte integrante de uma obra ainda em construção. Trata-se, inicialmente, de um conto sobre a cidade de Senhor do Bonfim. E se o bom Deus permitir, disponibilizarei para todos os moradores dessa cidade maravilhosa, tão logo conclua tal obra.
Elielton Cordeiro da Paixão.
Bacharel em SeguranƧa PĆŗblica – APM/PMBA
Professor de História – UPE/FFPP


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