segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A RUA VISCONDE DO RIO BRANCO E A ESTRADA DAS BOIADAS


(...) Após alguns instantes ousei falar. Ajustei o timbre e falei: “Ao ouvi sua voz me relatando tais coisas, com riqueza de detalhes, chego a sentir um aperto no peito por tanta coisa que foi perdido por geraƧƵes inteiras. Tudo jĆ” foi diferente, com pessoas diferentes e valores diferentes. Hoje as pessoas passam apressadas pelas ruas e nĆ£o imaginam que em cada esquina; em cada casarĆ£o, hĆ” um forte indĆ­cio dos antepassados, e que para chegarmos atĆ© o hoje, muitos braƧos ergueram cada tijolo dessas construƧƵes e abriram cada palmo de rua”. Nesse momento a imagem, parando de levitar, assentou seus pĆ©s ao chĆ£o – pĆ©s ocultos pelas vestes acinzentadas – apontou o cajado para a frente, me fazendo olhar para o inĆ­cio da rua onde estĆ”vamos. Era a Rua Visconde do Rio Branco. Paramos bem próximo ao posto do INSS, Ć  esquerda dava pra ver, lĆ” no alto, a lendĆ”ria e mĆ­stica Estação FerroviĆ”ria. Olhei acompanhando o movimento do cajado projetando a vista na confluĆŖncia com a Rua Ruy Barbosa, nas proximidades da PraƧa Austricliano de Carvalho. EntĆ£o a alma deu indicativo que falaria algo. Sempre que ela falava, eu contraia os ombros e baixava a cabeƧa, por temor e tremor; eu era uma poeirinha ali perto daquele ser. EntĆ£o ele disse: “Mortal, nós estamos pisando na mĆ£e de todas as ruas dessa cidade. Aqui estĆ” o caminho mais antigo, a gĆŖnese da Rancharia da Tapera”. Meus pensamentos embaralharam, aquilo nĆ£o me parecia lógico, mas nĆ£o atrevi fazer comentĆ”rios. EntĆ£o a imagem fez sinal para andarmos para frente.

Pensei... MĆ£e de todas as ruas... GĆŖnese da Rancharia da Tapera..., mas a Visconde nĆ£o Ć© uma rua tĆ£o importante assim, imaginei.  Minhas confabulaƧƵes chegaram ao fim quando aquela voz rouca comeƧou a se propagar novamente: “Soldado, o que hoje vocĆŖs chamam de: Avenida AntĆ“nio Carlos Magalhaes, Rua BarĆ£o de Cotegipe, Rua Rui Barbosa, Rua Visconde do Rio Branco e Rua Carrapichel, nĆ£o guardam nenhuma referĆŖncia com a real origem desse caminho. VocĆŖs humanos, costumam deturpar a doƧura das ‘origens’, subtraindo os batismos dos primeiros homens. Esta rua que agora pisamos, Ć© o que os bandeirantes, e pioneiros desta terra, chamaram de ESTRADA DAS BOIADAS.” 

O meu coração palpitou mais forte, tudo estava se clareando, de fato existiu essa Estrada das Boiadas, inclusive – pensei – hĆ” pouco tempo, antes da Construção da Rodovia Lomanto Junior (BR 407), inaugurada em 1967, a antiga Estrada das Boiadas, se chamava: Estrada Real Bonfim-Juazeiro. Em minha frente a imagem gesticulava com sua cabeƧa, envolto num manto, percebendo a compreensĆ£o que me tomava o entendimento. Abri um riso de canto de boca. Riso de agradecimento. A imagem continuou a falar. “A Visconde, como vocĆŖs a chamam, foi aberta por bois, mulas e cavalos. Os pĆ©s desses animais afundaram o chĆ£o matando raiz e aniquilando sementes postas ao solo.  A estrada se fez com a descida e subida desses animais atĆ© os Rio dos Currais. Era uma estrada imensa que partia do litoral atĆ© a margem direita do Rio. Ela foi a veia aberta, que irrigou o povoamento do sertĆ£o, dando origem a dezenas de cidades, inclusive a Villa Nova da Rainha.” 

Levei a mão ao queixo e refleti. Cada palavra ou frase daquele ser, se assemelhava ao pincel da canção Aquarela. Tudo se desenhava revelando o passado. Como eu poderia olhar para a Rua Visconde do Rio Branco da mesma forma? Mesmo sabendo da importância daquele Estadista para o Brasil, esta rua, por onde passo quase que diariamente, não serÔ mais a mesma. Uma nova conotação nascia ali. Agora tudo faz sentido. A Visconde é a mãe e o pai de todos os caminhos de Senhor do Bonfim, porque foi através desta rua que tudo passou a existir. Antes eu enxergava somente os trilhos de ferro, como via única a dividir a cidade em duas. Agora vejo que muito antes da estrada de ferro chegar por aqui (1887), existiu uma via ancestral, um caminho que trouxe os bois, garimpeiros, padres e aventureiros, ela sim foi a primeira referência de Senhor do Bonfim.

Na altura da Radio CaraĆ­ba, a imagem parou na calƧada oposta, e relatou: “Daqui, antes das existĆŖncias dessas casas, se contemplava a imensa Rancharia onde repousavam as pessoas que tocavam as boiadas. Era uma cabana coberto de palhas; um rancho com duas laterais compostas de madeiras e palhas tranƧadas, que os Ć­ndios, em sua lĆ­ngua, chamavam de Tapera. O Ć­ndio gentio auxiliava os tropeiros guiando-os e tocando suas tropas de bois. A Rancharia ficava mais no alto, enquanto os animais se concentravam mais a baixo, próximo da Lagoa... e após matarem a sede dos animais, e descansarem um pouco, rumavam sentido Rio SĆ£o Francisco; ou, quando em caminho inverso, sentido litoral, rumavam atĆ© chegarem na Casa da Torre, de Garcia d’Ɓvila, dono de todo o Norte da Bahia Ć  Ć©poca. Como se ver, mortal, a origem da antiga Estrada das Boiadas nĆ£o Ć© lembrada em absolutamente nada na atual geração, nĆ£o hĆ” menção ao Boi, ou ao Tropeiro em seu traƧado urbano”. Concordei tacitamente com aquele espirito, que falava com certo desprezo pelas condutas humanas. As geraƧƵes posteriores, nĆ£o prezam pela construção dos antepassados, somente usufruem de suas criaƧƵes. Esse egoĆ­smo do homem nos rouba a chance de conhecer nossa origem. A origem de Bonfim foi o Boi e o Tropeiro, primeiramente; depois o padre, seguido pelos aventureiros Ć”vidos pelo ouro de Jacobina e do Salitre de Campo Formoso.

Rua Visconde do Rio Branco... Senhor – falei virando para a Rua Carrapichel – por que, após o pontilhĆ£o, no final da Visconde, aquela rua recebe o nome de Carrapichel? A imagem, tocando o cajado ao chĆ£o, disse: “Aquela rua se chamava, atĆ© pouco tempo, Rua Juazeiro, pois era por ali o acesso Ć  cidade de Juazeiro. Passou a se chamar Carrapichel devido o constante acesso ao Distrito de Carrapichel, permanecer por ali, mesmo após a construção da BR 407”. Dito isto, aquela figura enigmĆ”tica, acessĆ­vel somente aos meus olhos, fez uma breve pausa enquanto uma senhorinha, muito idoso por sinal, passou descendo a rua. A imagem balbuciou algumas palavras rapidamente, nĆ£o entendi muito bem, mas nĆ£o tive a insolĆŖncia de perguntar, todavia entendi quando ele disse, fazendo alusĆ£o Ć  senhorinha: “uma descendente de Ceciliano de Carvalho”, e logo se calou voltando-se para mim: “veja, mortal, como as coisas estĆ£o em constante transformação entre os humanos. Nada Ć© absoluto entre os vivos, exceto suas crenƧas. Todos se findam, mas suas heranƧas permanecem. Bonfim nĆ£o sabe, mas suas festas e mĆŗsicos, sĆ£o heranƧas vivas de Ceciliano de Carvalho, atĆ© mesmo esses meninos que agitam as madrugadas no perĆ­odo junino, nas alvoradas com suas charangas, tudo isso foi posto por Ceciliano, um gĆŖnio dessa terra”.

Logo após ele falar, acebei me importunando com a condição pragmÔtica do ser humano. Nos tornamos seres pragmÔticos e relegamos a sensibilidade. Sem sensibilidade apenas duramos enquanto o tempo nos consome. E dessa maneira vamos ignorando a construção da vida humana. Não temos a exata noção, quando passamos em frente ao prédio da União e Recreio, ou da 25 de Janeiro, o que de fato representou essas instituições com suas filarmÓnicas para os antepassados dessa terra. Hoje estão reduzidas ao nada pelos jovens, mas jÔ foram os pilares da diversão e orgulho bonfinense. O tempo vai mudando os gostos e as preferências. União e Recreio... lÔ naquela esquina, envelhecida... é de cortar o coração! Os maiores bonfinenses se abrigaram ali.

JĆ” próximo Ć  praƧa Austricliano de Carvalho, passou um Ć©brio e resolveu gracejar comigo, reverberando que eu estava louco. “E este fala sozinho. Ɖ cada doido nessa cidade”, disse ele. Senti vontade de sorrir, mas a presenƧa daquele ser; aquele campo de forƧa de milhares de pixels, nĆ£o me permitia tamanha ousadia. Apressei o passo para me livrar do Ć©brio que desceu a Visconde soltando pulhas com os transeuntes. Quando me vi livre do Ć©brio, olhei para frente e contemplei a Catedral Diocesano. A catedral... O Ć©brio... Lembrei! Lembrei do assassinato do CĆ“nego Hugo em 1914. Gesticulei com as mĆ£os em busca da imagem, queria saber tudo sobre aquele acontecimento trĆ”gico da história de Bonfim. Girei para todos os lados procurando a imagem, no entanto nĆ£o mais estava em minha companhia. Fiquei ainda correndo os olhos pelos espaƧos, em pĆ© sobre a praƧa, mas sem sucesso. A imagem havia se retirado. Decidi retornar ao quartel. Meio frustrado, tomei a Rua Visconde sentido inverso.

Comecei a rememorar, enquanto caminhava. Entendi que na verdade a Rua IrecĆŖ, na margem direta do canal da malĆ”ria, e a Rua Visconde do Rio Branco, na margem esquerda, e mesmo a Rua SĆ£o Vicente, surgida praticamente sobre o Canal da MalĆ”ria, se traduzem no mesmo caminho denominado Estrada das Boiadas, que na atualidade, na Ć”rea urbana de Bonfim, comeƧaria no chamado “Barro” e sairia na Rua Carrapichel, e dali, margeando a Serra da Maravilha, se chegaria atĆ© Carrapichel, e depois ao Catuni, atĆ© despontar nas terras do cacique Jaguarari... e dali ganhar o Vale do SĆ£o Francisco. 

Continuei refletindo sobre a Rua Visconde. Meditei nas revelaƧƵes da imagem. Ɖ tudo verdade, pensei. Desde a Estrada do Barro, próximo ao contorno da Coelba, que tambĆ©m fazia parte da Estrada das Boiadas, atĆ© a Rua Carrapichel, nĆ£o hĆ” nenhuma alusĆ£o aos elementos originĆ”rios do povoamento e da origem de Senhor do Bonfim. Tropeiros, religiosos, bandeirantes, indĆ­genas, escravos e aventureiros das minas de Jacobina, nenhum deles estĆ” contemplado nos novos nomes dessas ruas. Ɖ uma incoerĆŖncia, disse comigo mesmo. JĆ” chegando no quartel, atravessei a via, de uma calƧada a outra, e lĆ” no fundo exclamei, Estrada das Boiadas... fostes teu primeiro nome. Tu Ć©s mĆ£e de todas as ruas. Em ti surgiram as primeiras habitaƧƵes dos homens precedentes. Hoje estais cobertas de asfalto e paralelepĆ­pedos, mas os cascos dos animais, e a planta dos pĆ©s indĆ­genas, foram os que te chamaram Ć  existĆŖncia. Abri um riso de satisfação com aquela descoberta. De fato, o que o coveiro havia dito estava se cumprindo, os pĆ©s da curiosidade estavam recebendo as informaƧƵes sobre a terra do Bom ComeƧo. Pisar naquele tĆŗmulo, bi-centenario, lĆ” no SĆ£o Marcos, foi ato da ProvidĆŖncia. 

Recordei o que disse a imagem certa feita, expondo a quantidade de informaƧƵes e fatos desconhecidos e perdidos, muitos que nĆ£o podem ser revelados, outros que o “alĆ©m” cria a possibilidade para os humanos conhecerem. Naquela ocasiĆ£o ele falou sobre Champollion e a Pedra de Roseta, deixando evidente que hĆ” certos mistĆ©rios, quando permitidos, sĆ£o revelados das mais variadas formas. Ao entrar no quartel, tomei nota de algumas coisas e fiz dois lembretes em bloco de anotaƧƵes. O primeiro era sobre o assassinato do cĆ“nego, e o segundo, tambĆ©m era sobre outro assassinato, o de Walfredo GonƧalves, em 6 de dezembro de 1977, em sua residĆŖncia na praƧa Nova do Congresso. Assassinatos e acontecimentos jĆ” apagados e transformados em reminiscĆŖncia, mas que ao seu tempo, abalaram a cidade de Senhor do Bonfim. Na próxima aparição do espectro, indagarei sobre tais fatos.   

OBS: Esse texto Ć© parte integrante de uma obra ainda em construção. Trata-se, inicialmente, de um conto sobre a cidade de Senhor do Bonfim. E se o bom Deus permitir, disponibilizarei para todos os moradores dessa cidade maravilhosa, tĆ£o logo conclua tal obra. 


Elielton Cordeiro da Paixão.
Bacharel em SeguranƧa PĆŗblica – APM/PMBA
Professor de História – UPE/FFPP     

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