Nunca mais a viu. Trabalhava no Grupo Escolar Nossa Senhora de Lourdes, atual Escola Municipal Thomaz Guimarães. Fora a sua primeira professora. Com ela aprendeu a recitar o alfabeto e a identificar as vogais e consoantes. Sempre paciente e divertida, é assim que recorda da professora Marcia. Professora, seu aluno traquinas e peralta, como tantos outros, cresceu, mas lembra-se das coisas divertidas que aprendeu com a senhora, do A-E-I-O-U às canções infantis: canção para chegar, para lavar as mãozinhas, para merendar, para receber um coleguinha, para se despedir – tinha canção para tudo no seu repertório!
Nessa mesma escola pública primaria aprendeu a ler. A professora alfabetizadora notara que conhecia as letras, mas que ainda não sabia juntá-las para formar as palavras. Recorda-se que ela tomava a lição de cada aluno, todos os dias. Rememora, ademais, ter ficado muito tempo na mesma leitura, Menino Poti, um texto de Ana Maria Machado. Um dia, enfim, vencera o texto e nunca mais esquecera o funcionamento do mecanismo fascinante da leitura. Professora Iracema, aquele menino – que certa vez brigou com um coleguinha na sua sala e quase foi expulso da escola – cresceu, criou juízo e sabe ser impossível retribuir-lhe tamanho benefício – aprender a ler é um verdadeiro milagre pedagógico e civilizatório.
Passaram-se oito anos. Numa aula de língua portuguesa, escutara a voz peculiar do professor Aloysio exclamar: – Deixa esse menino responder que ele é porreta! As palavras do mestre ficaram-lhe ecoando na cabeça. Naquele ano o professor aposentou-se e entrou em cena uma nova professora, também, dona de timbre vocal característico. Seu primeiro pedido à turma fora uma redação. – Pena não haver um jornal na escola, você tem senso crítico, disse-lhe a docente, após ler seus rascunhos. – Então, devo ser mesmo porreta, concluiu com seus botões o aspirante a redator. À professora Nêuda, a então novata de voz acentuada, deve as suas primeiras aventuras no mundo da literatura, da redação e da dramaturgia amadora – uma dívida impagável, ressalte-se.
Quisera o acaso que ao brincar com o A-E-I-O-U, ao repetir inúmeras vezes o texto Menino Poti, ao adaptar o romance A Infância Acabou em roteiro de peça, aquele aprendiz de redator se descobrisse enamorado do significado, do significante, da palavra, do discurso, do texto, das línguas orais e sinalizadas; e, finalmente, arrebatado pelo universo instigante, intrincado e vasto que é a linguagem humana. Outrossim, este ora reminiscente homenageia e evoca, em nome das professoras Marcia, Iracema, Nêuda e do professor Aloysio, todas as mestras e mestres que, como diz Edmondo de Amicis, por seus valiosíssimos ensinamentos tornam-se ‘pais e mães intelectuais de milhões de pessoas’ “e preparam [...] para o nosso país um povo melhor que o atual”.
O reminiscente,
Isaac Figueredo de Freitas
Ilha de Santa Catarina,
primavera de 2019


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