quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

ARTIGO: POR QUE A CHAMAMOS DE SENHOR DO BONFIM?

Por Tenente Cordeiro

“Se hoje te chamam Bonfim, foi porquĆŖ uma imagem do Cristo crucificado flutuou sobre as Ć”guas e uma tempestade quase ceifou a vida de um comerciante de escravos no meio do AtlĆ¢ntico.” 

O inĆ­cio dessa história aponta para a cidade de SetĆŗbal em Portugal. Ɖ lĆ” que surge a imagem do Cristo crucificado flutuando sobre as Ć”guas, que passou para a posteridade como Senhor Bom Jesus do Bonfim. Nesse tempo, por aqui, nem mesmo MissĆ£o do SaĆ­ existia. EntĆ£o se concentre que jĆ” conto essa história, pois ao que tudo indica, determinou o nome dessa maravilhosa cidade chamada de Senhor do Bonfim.

Em 1669, em Portugal, na cidade de SetĆŗbal, foi construĆ­do uma pequena igreja, que ficou conhecida como: “Anjo da Guarda”. Ocorre que nessa mesma cidade, tempos depois, encontraram uma imagem de aproximadamente 1,5 m, flutuando nas Ć”guas do Rio Sado. Era uma imagem de Cristo crucificado de braƧos abertos, como se estivesse em ascensĆ£o aos cĆ©us. Foi um espanto para a cidade que logo, pela devoção desmedida do perĆ­odo, passou a celebrar aquela imagem milagrosa. Discutiram qual o “fim” dariam para aquela imagem. Deveria ser um “bom fim”, pois aquele advento da imagem era coisa sagrada. NĆ£o tardou e a imagem, pela dinamicidade da lĆ­ngua, ficou conhecida como Nosso Senhor do “Bomfim”(escrita com M), e a pequena igreja, atĆ© hoje existente, que ora se chamava “Anjo da Guarda”, abrigou aquela imagem poderosa.

Com o passar do tempo, a igreja passou a se chamar Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, dado ao alto grau de visitação e preces feitas àquela imagem. Até mesmo o Rei de Portugal, D. João V, conhecido como príncipe perfeito, esteve na igreja fazendo promessas pela recuperação do seu genitor, D. Pedro II. Vejam como o santo se tornou popular em todo o país, tendo como devoto o próprio Rei. Então, note que o termo SENHOR DO BONFIM jÔ era conhecido do mundo português bem antes do surgimento da Rancharia da Tapera.

Aqui no incipiente Brasil, o que tĆ­nhamos eram as Bandeiras e MissƵes adentrando ao paĆ­s. a exemplo dos franciscanos, que ergueram algumas MissƵes em pontos variados do nordeste brasileiro, a exemplo da MissĆ£o do SaĆ­, fundada em 1697, aos pĆ©s de um imenso monte em forma de cone, que posteriormente foi batizado de Monte Tabor – em outra oportunidade direi o porquĆŖ de Monte Tabor. Ali comeƧou a florescer o povoamento no Piemonte, atravĆ©s da catequização. Foi criado um convento e um cemitĆ©rio, alĆ©m de uma igreja em homenagem a Nossa Senhora das Neves. Tempos depois, jĆ” em 1720, MissĆ£o do SaĆ­ foi a sede da Comarca de Jacobina. Bem perto dali se formou um ponto de apoio aos viajantes e tropeiros nos arredores de uma lagoa. O nome desse lugar? Rancharia da Tapera.

“Tapera” Ć© uma palavra de origem tupi-guarani que significa “casa velha” ou “aldeia abandonada”. Ɖ uma junção dos termos: taba e uĆŖra. Taba significa “aldeia”, e uĆŖra significa “abandonada”. De fato, a tapera, provavelmente feita de varas e coberta de palhas, era um ponto no meio da mata, que servia de apoio a quem por ali passasse. Era um ponto de descanso e renovação das forƧas. Tanto de gente como de animais e aĆ­ estĆ” o primeiro nome da nossa cidade: Rancharia da Tapera. Provavelmente era um ponto meio abandonado usado por todos que ali chegavam.

Acontece que a Tapera deu origem a um lugarejo que cresceu e foi alƧado Ć  categoria de “Arraial”, jĆ” com o mĆ­nimo de estrutura administrava. Ɖ aĆ­ que reside o mistĆ©rio. HĆ” um elo perdido; um momento mĆ”gico em que alguĆ©m sugeriu, quando a Rancharia evoluiu para Arraial, que batizassem com o nome de “Arraial do Senhor do Bonfim da Tapera”. O pleito foi feito Ć  Ouvidoria da Bahia em 1750, sob a alegação de que era preciso “Ordem e Administração da JustiƧa”, para afugentar os “malfeitores e vadios” que estavam a perturbar a tranquilidade. AĆ­ estĆ” o real motivo da criação do Arraial. Mas por que se chamou Senhor do Bonfim da Tapera? Bom, Tapera nĆ£o era novidade, todavia, Senhor do Bonfim, sim.

Deixe-me contar uma história a vocĆŖs. Existiu um portuguĆŖs que residia na cidade de Salvador. Era um comerciante de escravos. Alguns homens miserĆ”veis tem uma segunda chance na vida, assim como o inglĆŖs John Newton, criador da maravilhosa canção Amazing Grace, ele tambĆ©m era comerciante de escravos. O portuguĆŖs Teodósio Rodrigues de Faria, tambĆ©m era capitĆ£o-de-mar-e-guerra da Marinha portuguesa. Era dono de trĆŖs navios negreiros com os quais engrenavam o maior dos pecados contra Deus e contra a humanidade, a escravidĆ£o. Em uma madrugada, o dito capitĆ£o enfrentou uma tempestade no meio do oceano atlĆ¢ntico, viu a morte de perto e fez votos e promessas a Deus, que poupasse sua vida e em troca levaria para a cidade de Salvador uma imagem do Cristo crucificado emergido das Ć”guas. Ɖ exatamente o que vocĆŖ estĆ” pensando, o capitĆ£o era natural da cidade de SetĆŗbal em Portugal e conhecia a história e o poder da imagem do “Bom Senhor do Bomfim”. A tempestade passou e sua vida fora poupada, e logo ele cumpriu sua promessa trazendo para a Bahia, em 18 de abril de 1745, uma rĆ©plica perfeita do Bom Senhor do Bonfim, existente em SetĆŗbal. AlĆ©m desta, trouxe tambĆ©m uma imagem de Nossa Senhora da Guia.

A fama do novo santo correu os confins da Bahia. Logo se iniciou a construção de um templo para abrigar a imagem miraculosa. E foi assim que surgiu um dos monumentos sacros mais importantes do Brasil, que é a igreja de Senhor do Bonfim em Salvador. A construção fora iniciada em 1746 e concluída, a parte interna do templo, em 24 de junho de 1754. Paralelo à construção da igreja em Salvador, iniciou a construção do segundo tempo na Rancharia da Tapera, por Custodio Alves dos Reis. A História relata que inicialmente era um templo precÔrio, coberto de palhas, mas construído num alto, imitando a sagrada colina da igreja em Salvador. O mesmo Custódio Aves dos Reis, começou a construir o templo com pedras e alvenarias. Quando a obra estava quase pronta, este faleceu em 1755. Então o povo se uniu em torno do padre Anacleto Soares da Veiga e concluíram obra no mesmo ano de 1755. Ficou pronta a igreja com duas torres bem robustas, aparentando com a igreja da capital, também recém construída.

O fato é que a devoção a Senhor do Bonfim se alastrou como pólvora incendiaria pela Bahia, e, em algum momento, que ainda desconhecemos, a crescente Rancharia da Tapera, no tempo em que o justo pleito para transformação em Arraial foi empenhado, um iluminado, embalado pela devoção, deve ter sussurrado... batizem esse novo Arraial com o sagrado nome do Cristo crucificado, Senhor do Bonfim. E ao que tudo indica a sugestão fora aceita e hoje assim a cidade é conhecida. Não é de causar espantar, quando vamos buscar na história, a desmedida influência depositada no aludido santo. Até mesmo Theodósio e outros devotos, em forma de gratidão, tentaram criar oficialmente uma irmandade oficial com a finalidade de promoverem a devoção e a popularização do santo (Senhor do Bonfim) em toda a província da Bahia. A irmandade não existiu oficialmente, pois sua criação foi negada, mas extraoficialmente ela cumpriu o intento com sucesso.

Notem que a igreja do Bonfim, em Salvador, começou a ser construída em 1746, e a igreja da Rancharia da Tapera, começou a ser construída no mesmo ano da sua elevação à categoria de Arraial, em 1750. Pela proximidade cronológica, percebe-se que a Rancharia jÔ estava sob a forte influência devocional do novo culto ao Senhor do Bonfim. O desejo de ser chamada pelo nome do santo, foi confirmada no ano de 1774, quando Gabriel Gonçalves da Silva, ofertou aos fiéis da cidade, uma réplica da mesma imagem presente no templo de Salvador, que jÔ era uma réplica da imagem existente em Setúbal.

EntĆ£o, bonfinenses, no ano de 1750, a Racharia, oficialmente passou a se chamar Arraial do Senhor do Bonfim da Tapera. Tempos depois, em um novo pleito dos moradores, o Arraial foi elevado Ć  categoria de Vila. Naquela ocasiĆ£o, o prĆ­ncipe regente D. JoĆ£o VI, em homenagem a sua mĆ£e, Dona Maria I, rainha de Portugal, emitiu a carta rĆ©gia em 08 de junho de 1799, criando a Villa Nova da Rainha. Ressalto que foram criadas diversas Vilas no Brasil nesse tempo, inclusive com o mesmo nome de Villa Nova da Rainha. Entretanto, quase 100 anos depois, quando a Vila se transformou em cidade, o antigo nome de Senhor do Bonfim reapareceu. Em 28 de maio de 1885, por lei, quando da criação do municĆ­pio, passou a se chamar: Cidade do Senhor do Bonfim. E ainda houve uma tentativa de mudarem novamente o nome para: Cidade Nova da Revolução, no final do ano de 1889, por ocasiĆ£o da empolgante participação da cidade nos acontecimentos que precipitaram a proclamação da repĆŗblica no Brasil e na Bahia – Mas essa Ć© outra história.

Dessa forma, penso que nĆ£o cabe dĆŗvidas, de que a cidade de Senhor do Bonfim, comeƧa sua origem ainda mesmo em SetĆŗbal, quando a imagem do santo flutua sobre as Ć”guas, e que chegou ao Brasil por ocasiĆ£o de um comerciante de escravos, que na iminĆŖncia da morte, fez promessas e acabou trazendo ao Brasil, aquilo que se transformaria em uma das mais poderosas devoƧƵes cultuadas no paĆ­s, tĆ£o forte que atĆ© mesmo o sincretismo religioso, tambĆ©m se apropriou. O “Bom fim” que buscavam para a imagem do santo, deu-nos o “Bonfim, Terra do Bom ComeƧo”.


Elielton Cordeiro da PaixĆ£o – Ten PM.
CFO PM - APM/BA - Prof. de História – UPE
3Āŗ BEIC – Juazeiro.               

ReferĆŖncias: Bonfim, Terra do Bom ComeƧo – Adolfo Silva/1971;
1 -https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/misterios-do-bonfim-veja-partes-desconhecidas-da-maior-devocao-da-bahia/ 
2 - http://salvadorhistoriacidadebaixa.blogspot.com/2011/11/nossa-postagem-sobre-os-bondes-de.html

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