segunda-feira, 27 de marƧo de 2023

ARTIGO: SARGENTO WILANEY DEVOLVE DIGNIDADE A HOMEM ESQUECIDO PELA VIDA

Ilustração


Em mais uma história da vida real, o Sargento PM Wilaney relata, uma situação que nos levarÔ a refletir mais uma vez, sobre a vida. Vida muitas vezes esquecidas, abandonadas, e que um simples ato de amor, pode devolver a dignidade de um homem.


O fato ocorreu no povoado de Olhos D'Ôgua, quando o Sargento inda trabalhava na 3ª CIPM, na cidade de Jaguarari, pertencente ao 6º BPM.


Confira mais um emocionante relato do Sargento Wilaney


HavĆ­amos acabado de encostar na companhia em um dia de serviƧo Ć s 13:00 da tarde para almoƧar quando a viatura do SAMU parou ao nosso lado. Junto ao motorista e da socorrista vinha Renata, a chefe do CAPS. “Estou precisando da ajuda de vocĆŖs para medicarmos e resgatarmos um paciente em um povoado”. Ela nos dizia, de forma breve. Deixamos o almoƧo de lado e partimos junto a ambulĆ¢ncia atĆ© o local determinado. Chegando no povoado, avistamos um grupo de pessoas gesticulando e falando “Ɖ aqui!”. A ambulĆ¢ncia parou e logo atrĆ”s vĆ­nhamos nós na viatura, Ć©ramos trĆŖs policiais. Descemos do veĆ­culo e fomos em direção aos moradores que diziam se tratar de um irmĆ£o violento e agressivo, que estava ‘atacado’ e se encontrava em um quartinho, nos fundos da casa. 


Com a adrenalina a mil, seguimos em direção ao rapaz, agora de modo invertido: a gente na frente e o pessoal do SAMU atrĆ”s. Passei os olhos pelo local e vi um quartinho sem porta, meio escuro, com uma cama de madeira sem o lastro, somente um papelĆ£o entre a armação e, no canto mais escuro, um homem sentado no chĆ£o de terra batido. A barba e os cabelos grandes, todo sujo, muito magro e com olhar assustado para nós. Nós tambĆ©m estĆ”vamos assustados. Sem saber a reação dele, tirei minha arma e passei para o colega dizendo: “Gracenio, passa tua arma tambĆ©m ao Bruno, ele estĆ” sozinho e nĆ£o vejo arma, facĆ£o, foice, ferro ou qualquer pedaƧo de madeira que possa nos atingir.” O quartinho só possuĆ­a uma saĆ­da. Quando eles concordaram, estiquei o braƧo para o homem e lhes disse: “Boa tarde...”, bem no cantinho, ele me falou algo que nĆ£o consegui compreender. Fui me aproximando bem devagar, com o braƧo ainda esticado, tentando manter algum diĆ”logo com ele; de sua boca saiu um som que eu pouco entendia. Ao chegar bem próximo, ele segurou minha mĆ£o, estava trĆŖmulo e suas mĆ£os molhadas de suor. Havia tanto medo nele. Os cabelos e barba longas cobriam seu rosto. Eu ainda tentava manter algum contato e lhes perguntava se estava tudo bem.  Puxei o homem devagar, ele foi levantando aos poucos e vindo em minha direção, largando minha mĆ£o e segurando no meu braƧo como uma crianƧa. Ao olhar para suas mĆ£os, percebi as unhas enormes e sujas, estando as dos pĆ©s do mesmo jeito. 


Levei-o para fora do quartinho em direção a ambulĆ¢ncia e aquele homem, horas dito ser violento e agressivo, agora parecia mais uma crianƧa desorientada e perdida. Mesmo na ambulĆ¢ncia, ele nĆ£o largou meu braƧo, e dado a isso, tive de ir junto aos socorristas, enquanto os colegas seguiram na viatura. Chegando no CAPS, estando o homem jĆ” medicado, eu perguntei Ć  Renata se eles possuĆ­am uma mĆ”quina de cortar cabelo, ao passo que ela me confirmou. Enquanto ele me olhava, comecei a cortar seu cabelo e depois a barba. Ali percebi que a dignidade de um ser humano estava sendo restaurada. Pedi ao pessoal um espelho e mostrei seu rosto, lhes dizendo “Esse Ć© vocĆŖ!“ ele olhava e sorria, e para minha surpresa, as meninas que ali trabalhavam chegaram com roupas e logo o levaram para o banheiro para que pudessem lhes dar banho. 


Foi incrível ver aquele ser humano renascendo e tendo sua dignidade restaurada. Não sei o que houve com ele depois, pois fui transferido para outra unidade e perdi o contato do pessoal do CAPS e desse cidadão anÓnimo, quase inexistente para o mundo.


Autor: Sgt PM Wilaney

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